08/06/2014

perfil de João Rebocho Pais

[texto de Sónia Alcaso; imagens 'gloriosas' cedidas pelo João Rebocho Pais]

João Rebocho Pais é um homem inteiro, cheio de jogos (e) de palavras. Desses, com força para sondar as palavras, as dominar e chutar, certeiramente. Sim, falo da escrita e também desse desporto que move paixões, porque a literatura também pode ser comparada com a seriedade imensa de um jogo de futebol. Um jogo onde cada vitória e derrota do Benfica é vivida de uma maneira intrínseca por João, mas também por cada um dos benfiquistas. Não apenas aquilo que se passa dentro das quatro linhas; mas também a partilha. Parte de um povo em uníssono, a deixar-se unir pelo mesmo sentimento, a mesma crença, a mesma cor, as mesmas alegrias, as mesmas tristezas. Como na literatura. Dois olhos a mais ou a menos fazem toda a diferença. Escreve-se para os outros. Quem sabe, um dia, com os outros?


Duas paixões na vida de João - os livros e o Benfica -, somadas a outras tantas, com as maiores nos filhos, Francisco e Miguel, e as restantes nos prazeres à volta, como a simples contemplação de uma árvore ou uma estátua. É assim, João Rebocho Pais: feito de sorrisos desarmantes e olhos divertidos de quem acabou de pregar uma partida ao mundo. Ou foi o mundo que te pregou uma partida a ti?

O escritor surgiu por acaso; o comissário de bordo também. Mas tanto pega nas malas (mesmo que se tornem pesadas), como nas canetas, que, nos dias que correm, também já não são penas.

Hoje é um escritor com dois livros publicados. O primeiro, "O intrínseco de Manolo", surgiu inesperadamente, por um decisivo e milagroso acaso. O segundo, "Dizem que Sebastião", foi natural, o esperado de uma voz original, cheia de humor, que disfarça a crueza da vida e que se quer ouvir. O caminho é bonito e apetece.

João é um escritor obstinado, leal às amizades e, sobretudo, a si próprio. Um escritor que não cruza os braços, antes pelo contrário, transforma-os rapidamente em asas e leva os seus livros às nuvens. Essas, que estão mesmo a seguir às janelas dos aviões.

Escreve histórias de amor, mas também de solidão, de personagens que redescobrem a essência da vida. Mesmo que seja no seu ocaso. O importante é deixar a alma, serena, voar feliz como os pássaros que se interrogam sobre os humanos. Como é que se consegue essa leveza, João? Relativizando o que pouco ou nada interessa. Ter a consciência de que viver é uma graça da natureza. Parece fácil, mas não é. Lendo João Rebocho Pais, talvez o consigamos aprender. Pelo menos o suficiente para que neles, nos seus livros, fiquemos. Ou para que eles fiquem dentro de nós.



"Cousa Vã guardara lugar em sua vida, habitava um espaço importante como o são todos os que nos ocupam a mente, que nos trazem tesouros que sabemos guardar, isso confessava Manolo à árvore, com ela dividindo a vez de regressar a esse tempo, trazendo histórias de tantos dias passados, partilhados, onde haviam aprendido a cumplicidade que os unia. Manolo envelhecia, e isso a árvore ia percebendo, aumentando-lhe a sombra, para que assim com ela descansasse sossegado. E, ainda que vivendo mil anos, era árvore velha também." 
O Intrínseco de Manolo (pág.170) 

Sem comentários:

Enviar um comentário